quinta-feira, 23 de abril de 2015

A doce transformação em nossa literatura



Uma breve reflexão sobre a música “Amor I love you”, de Marisa Monte


Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma
me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pra as paredes
Coisas do meu coração
Passei no tempo
Caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão
É um espelho sem razão
Quer amor fique aqui

Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu gostar de você
Isso me acalma
me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver

Hoje contei pra as paredes
Coisas do meu coração
Passei no tempo
Caminhei nas horas
Mais do que passo a paixão
É um espelho sem razão
Quer amor fique aqui

Meu peito agora dispara
Vivo em constante alegria
É o amor que está aqui

Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you

" - Tinha suspirado
Tinha beijado o papel indevotamente
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades
E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas
Como um corpo ressequido que se estira num banho tépido
Sentia um acréscimo do estímulo por si mesma
E parecia-lhe que entrava enfim uma existência superiormente interessante
Onde cada hora tinha o seu intuito diferente
Cada passo conduzia um êxtase
E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações."

Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you
Amor I love you

  
                       A letra de música aqui apresentada para análise foi escrita por Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes – que na época formaram o grupo intitulado de “Tribalistas”, teve grande aceitação pelos ouvintes por seu tom melódico e romântico.

            A letra é declaratória com características moderno/romântica e narrada em primeira pessoa. O eu - lírico proposto, embora seja cantado pela voz de Marisa Monte, não tem característica feminina, única, o que não impediria de um homem expressar tal sentimento declaratório.

            A construção e estruturas da primeira e terceira estrofes são idênticas; a segunda e quarta estrofes também se assemelham. Nelas constatei erros de uniformidade de tratamento: você / tu.

            Analisemos a letra morfossintaticamente:

            “Deixa eu dizer que te amo”: no primeiro verso da primeira estrofe, o verbo “deixar” é transitivo direto, o que significa não possuir predicação completa, necessitando assim de um objeto direto para completá-lo na predicação. Ocorre que a palavra “eu” ora sublinhada, desempenha o papel de objeto direto do verbo “deixa” na oração, contudo a palavra “eu” é um pronome do caso reto e não pode desempenhar outro papel a não ser o de sua função específica, que é representar os nomes dos seres ou indicá-las na pessoa do discurso.

            Esta oração então ficaria correta se deslocarmos o pronome átono “me” depois do verbo, já que não se abre frases com pronomes oblíquos; assim teríamos como resultado: “Deixa-me dizer que te amo” que é uma ênclise, assim denominada quando se anexa pronomes a verbos.

            Terminando a análise da oração, está correto na oração o verbo “dizer” no infinitivo (2ª conjugação), mesmo que a palavra anterior esteja mal posicionada. O curioso é que a oração inicia com um erro sintático e termina de forma correta (“... que te amo” e não “amo você”).

            Igualmente persiste o erro no início do segundo verso da estrofe, exceto ao final da oração quando o verbo “pensar”, que é intransitivo – que é aquele que não necessita de complementação por ter sentido completo. Mesmo sendo aceitável a presença de um predicativo (... em você).
  
            No quarto verso não se deve iniciar frases ou orações com pronomes oblíquos, já mencionados anteriormente.

            Na segunda estrofe, a palavra “pra” é a forma sincopada da preposição “para” que muitos escritores clássicos preferem não usá-la. Toda essa estrofe foi escrita usando figuras de linguagem, sobretudo metáforas.

            Depois da quinta estrofe, há uma narração em terceira pessoa em que o narrador de presença onisciente, descreve uma ação da personagem Luíza, da obra realista de Eça de Queiroz “O Primo Basílio”.

            Quanto à forma literária ora proposta, analisei e conclui de que os autores e escritores utilizam de um recurso que é conhecido como “LICENÇA POÉTICA”, que significa não haver uma regra única e determinante para rimas e afins, prevalecendo as ordens de caráter pessoal, de acordo com a escrita e harmonia. Até os erros são aceitos.

            Nessa música, por exemplo, os erros foram escritos de forma proposital para uma melhor aceitação na letra da música. É a presença da licença poética. O excerto de Eça de Queiroz recitado por Arnaldo Antunes, dá autonomia aos autores e completa o pensamento ora apresentado de que esse grupo conscientemente sabe o que escreveu.

Quem sou eu

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Professor é Pós-graduado em Gestão ambiental pela Universidade Cândido Mendes. Atualmente desenvolve trabalhos na área de "Crimes Ambientais" e partilha seus conhecimentos através de publicações e debates

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